sábado, 21 de agosto de 2021

MILAGRES, NOSSA TERRA CARIRI

MILAGRES, NOSSA TERRA CARIRI


Depois de se arrastarem pelo litoral feito caranguejos, como afirmou Frei Vicente do Salvador, toda a Terra Brasilis foi sendo ocupada e todos os povos originários que aqui habitavam foram se tornando vítimas da sanha ambiciosa dos exploradores. Aos poucos todo o interior dividido em Sesmarias, foi se transformando em povoados, vilas, cidades e o colonizador ia tecendo a história que melhor se adequasse aos seus interesses. Com a nossa Milagres não diferente, e durante muitos anos nos contentamos com a história que foi repassada às gerações, a do branco explorador Souza Presa e da “índia” a quem nem se quer deram direito ao nome, até porque sendo de um “povo violento e canibal”, o que esperar? Depois ouviu-se, mas com voz baixinha, de que haveria um senhor Bento Correia Lima que havia sido o sesmeiro responsável a explorar oficialmente essas terras, a quem
foi destinado somente uma rua nos arredores do centro da cidade. Tomamos o mito fundador e como verdade absoluta e nos aventuramos a enaltecê-lo em verso e prosa e a memória dos povos originários foi sendo empurrada para tão distante de nós que parecia que nem sequer existiram. Aqui e ali ia surgindo em som abafado a história dos vencidos em forma
de ditos populares, “minha avó foi pega a dente de cachorro”, com o conhecimento ancestral sobre ervas medicinais, aprendi a conhecer esses “matos” com os “caboclinhos”, através das
feições fenotípicas de homens e mulheres de pele escura e cabelos lisos que não se assemelhavam aos afrodescendentes. E isso ia dando pistas para a desconstrução do discurso oficial. Espalhados por nossa geografia haviam outras evidências como pinturas rupestres, e do chão afloraram machadinhas, igaçabas, utensílios de barro e foi ficando
difícil silenciar a voz dos vencidos que teimava em dizer: Nós existimos! Não deu para abafar também o forte cantar dos Congos do Rosário ou os Pretinhos de Congos de Nossa Senhora que rasgaram por mais de dois séculos o discurso que relegava a história do negro na nossa cidade somente a questão da escravidão. Com seu colorido vibrante e seus espelhos iluminaram a história do povo preto dizendo: Somos reis e rainhas, “nossos passos vêm de longe”, alegrem-se! Porém numa cidade em que o poder dos coronéis se constituiu como forte elemento político desde o império até a ditadura militar, a resistência torna-se muito árdua e essas manifestações não interessavam a quem estivesse no poder. É importante salientar que as narrativas históricas tem um enorme poder sobre a construção identitária de um povo sendo as relações políticas, culturais e sociais profundamente marcadas por esta. Não saber quem somos faz com que nos tornemos vulneráveis e dificulta a nossa organização e construção do sentimento de pertença. Essa afirmação parte de uma inquietação nascida das escutas de mais de duas décadas dos jovens negros e pobres que frequentaram e frequentam a escola pública da nossa cidade onde os mesmos afirmavam e afirmam que “Milagres não tem nada que preste”, “Eu quero é ir embora”, “Milagres é bom é de afundar”. Isso me incomodava e incomoda, e ficava querendo entender a causa dessa narrativa depreciativa com sua terra. O discurso oficial os deixava de fora da sua própria história, não eram brancos, sua pele escura os denunciava que não eram bem vindos, pois ou seriam descendentes dos “terríveis e cruéis bárbaros tapuias ou aos negros escravizados, que sofreram maus tratos e que sua terra fora a última do Ceará a liberta-los” . Como afirma o historiador Pierre Nora “O acontecimento, esta novidade ininteligível, deve ser clarificado pelo historiador, que lhe tem de fornecer uma explicação provisória e plausível, e esta explicação só pode enraizar-se no passado.” Desta forma procuramos durante algum tempo tentar entender essa mentalidade da juventude milagrense, até que ponto a narrativa construída sobre a história do seu povo era responsável por esses sentimentos. E foi na tentativa de explicar enquanto historiadora essas questões, que a vida me deu a oportunidade de compartilhar com o Professor Carlos César Pereira de Sousa algumas informações e muitas angústias. Iniciamos um projeto para pesquisar, analisar e escrever
coletivamente a história de Milagres, não vingou. Vários temas para pesquisa iam sendo propostos pelos estudantes da E.E.M Dona Antônia Lindalva de Morais e orientados pelos Professores Carlos César e pela professora Maria de Lurdes Gonçalves Guimarães e demais professores da área, começamos a perceber que havia muito sobre nós a ser revelado em acervos de documentos que iam sendo encontrados, em fontes orais como a “meizinheira” Dona Diunizia e o Mestre Doca Zacarias, e nos achados que os alunos iam trazendo como machadinhas, restos de cerâmicas encontrados no quintal, dentre outros. É dessa forma (e com outros perrengues não revelados), que nasce MILAGRES: NOSSA TERRA CARIRI, importante obra que apresenta e discute a nossa história desde os primeiros momentos do encontro entre o colonizador e os povos originários até as últimas décadas do século XX. Uma profunda análise das questões políticas, religiosas, culturais, educacionais escrita com muito zelo e respeito, por alguém que não sendo milagrense a escreve sem paixões,
com a sobriedade necessária para construir uma perquirição científica criteriosa e amplamente fundamentada em documentos, conectando sempre a nossa história local às questões regionais e nacionais de cada época. Uma obra, que pela amplitude será de interesse regional. Entendo que se constituirá com importante referencial para que possamos compreender nossa gênese, nos fortalecer enquanto povo e quiçá entendermos que podemos ser uma unidade na diversidade. Se reconhecermos os nossos erros, sem melindres, identificarmos nossas fortalezas para que possamos nos projetar não somente para o futuro, como propõe o obelisco construído para marcar a passagem do centenário em 1946. Para começarmos a viver novos momentos hoje.

ANA MARIA NUNES DA SILVA
HISTORIADORA E EDUCADORA

sábado, 3 de julho de 2021

 TABELA 1: INVESTIMENTOS FEDERAIS E ESTADUAIS NA E.E.M.DONA ANTÔNIA LINDALVA DE MORAIS NA DÉCADA 2011-2020. (FONTE ASSESSORIA FINANCEIRA DA ESCOLA)

Ano

Recurso estadual

Recurso federal

Total

2011

R$173.978,04

Merenda escolar

PDDE

R$ 231.136,04

R$ 57.378,00

Sem dados

2012

R$ 13. 700,00

R$ 54. 360,00

R$ 9.051,20

R$ 77.111,20

2013

R$ 31. 335,29

R$ 41.956,00

Sem dados de pagamento

R$ 73.291,29

2014

R$ 26.454,00

R$ 19.980,00

R$ 19.004,80

R$ 65.438,80

2015

R$ 14.375,20

R$ 34.799,06

R$ 17.204,80

R$ 66.379,06

2016

R$ 26.352,59

R$ 37.731,85

R$ 9.600,00

R$ 73.684,24

2017

R$ 23.015,67

R$ 41.226,20

R$ 54.460,00

R$ 118.701,87

2018

R$ 124.070,69

R$ 41.377,60

R$ 22.303,40

R$ 187.751,69

2019

R$ 17.663,50

R$ 44.906,00

R$ 10.600,00

R$ 73.169, 50

2020

R$ 13.200,25

R$ 23.624,96

R$ 66.396,80

R$ 103.22,02

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

HOMENAGEM DA ESCOLA LINDALVA DE MORAIS AO MESTRE DOCA ZACARIAS NOS SEUS 91 ANOS DE VIDA!

https://www.facebook.com/100006062311197/videos/2735199443358773/ 

HOMENAGEM A DUAS DIRETORAS NEGRAS DA ESCOLA LINDALVA DE MORAIS

    A mulher negra brasileira vem assumindo ao longo da história de nosso país inúmeras lutas, cada uma delas se impõem como uma forma de enfrentamento contra a opressão, contra a marginalização, são muitas as práticas de poder que procuram impedir sua ascensão como protagonistas da história do país. Desde o século XIX essas mulheres se colocaram como força ativa e transformadora da sociedade, são elas que ao se engajarem nas lutas sociais erigem uma nação democrática e mais justa.

    Na Semana da Consciência Negra do ano de 2020 precisamos mais do que nunca lembras do protagonismo das mulheres negras que se insurgiram contra o escravização das pessoas negras, contra o racismo do Brasil no Pós-abolição, contra as políticas segregacionistas do estado brasileiro.

   Mulheres que partilhando dos ideias de justiça, igualdade e de que todos são irmãos, propuseram um novo modelo de sociedade e criaram através de suas falas e práticas a esperança de um país melhor. Assim são as duas educadoras negras que dirigiram a E.E.M.Dona Antônia Lindalva de Morais nos últimos oito anos, Neininha (2005-2013) Ana Nunes (2013-). Duas mulheres que assumiram a missão de educar os jovens da cidade de Milagres, que foram nomes marcantes no processo educativo da Escola Lindalva de Morais. Duas grandes lideranças negras do município de Milagres, que compreendem ser necessário educar para transformar a sociedade


    Nesta Semana da Consciência Negra quero parabenizar essas duas educadoras que muito contribuíram e contribuem com a nossa querida Escola Estadual e para o sucesso dos nossos jovens.

 


PARABÉNS MULHERES NEGRAS, PROTAGONIZANDO SUA PRÓPRIA HISTÓRIA!

OUTRAS SEMANAS DA CONCIÊNCIA NEGRA NO ESTADUAL - RETROSPECTIVA

 

Os Pretinhos de Congos se apresentam na Escola Lindalva de Morais, Mestre Doca Zacarias ensinando seus saberes ancestrais para a Juventude Negra do estadual.

Momento maravilhoso em 2014 quando os Congos de Milagres receberam homenagens da nossa Escola Lindalva de Morais por seu maravilhoso papel de educar através dos saberes ancestrais.
Meninos e meninas do Congo de Mestre Doca Zacarias em momento de alegria e homenagens no Estadual. Temos orgulho de ser uma escola inclusiva e de problematizar a educação antirracista.
Os Conguinhos de Milagres mostram com  orgulho suas vivências negras, sua cultura e sua história de lutas e memórias do povo negro do Vale do Riacho dos Porcos.
Nós somos apenas espectadores esses Congos são os protagonistas da vastíssima história afro-brasileira em Milagres.
Apresentação dos Congos de Milagres em 2014 na E.E.M. Dona Antônia Lindalva de Morais
Fazendo todo o Ritual de Coroação dos Congos, Mestre Doca Zacarias educa nossos alunos a assumirem sua ancestralidade e sua  negritude profunda.
Todos os Mestres da Cultura são educadores e a Escola Lindalva de Morais compreende MESTRE DOCA ZACARIAS como educador dos próprios educadores da escola.
Toda a Escola Lindalva de Morais se emocionou com esse momento no dia 19 de novembro de 2014, foi um dos grandes momentos para nossa africanidade do estadual.
O MESTRE DOCA ZACARIAS na sua função de educador, toma a palavra e educa uma escola inteira, esse é o verdadeiro educador ancestral!
Alunos da escola apresentam dança africana na Semana da Consciência Negra de 2015, mais uma homenagem as africanidades milagrenses.


Manter viva as raízes ancestrais africanas, criar uma prática educacional antirracista, esse é o papel da escola, o Estadual sempre na vanguarda das políticas públicas.


A professora mestra Lourdinha Gonçalves apresentando Mestre Doca Zacarias e seus Pretinhos de Congo aos alunos.



Mais um ano com Mestre Doca Zacarias na escola, em 2016, pensando com as africanidades as identidades afromilagrenses.
Mestre Doca Zacarias o príncipe do Reinado de Congo, homenagens não esgotam os favores que devemos a este rei africano.


Tradicional Feijoada do 20 de novembro no estadual, porque a história também é cheiro e sabores.


Cultivando a história e a memória afetiva dos sabores africanos na nossa tradicional feijoada, cozinha maravilhosa da negra Corrinha de Seu Vicente, educando pelo paladar e pelo olfato, ensinando história com seu delicioso tempero africano.




Compartilhando saberes e sabores africanos, todo mundo aprendendo com nossa deliciosa e tradicional feijoada de 20 de novembro, aprendem os alunos e aprendem os professores.


FESTA DE ANIVERSÁRIO DE MESTRE DOCA ZACARIAS, COMEMORANDO SEUS 85 ANOS COM OS ALUNOS DA ESCOLA LINDALVA DE MORAIS, FOI UMA TARDE MARAVILHOSA DE INSACIÁVEL APRENDIZADO!


Carlos César Pereira de Sousa